Em directo das trincheiras

Um dia decorrido sobre o fenómeno Ensitel, ainda zumbiam as flechas e balas de canhão pelo ar e já choviam as análises mais ou menos elaboradas. A promessa de “case study”, teses de mestrado e outros escrutínios excitavam os académicos e jornalistas.

Já li tanta conclusão precipitada, tanta ejaculação precoce que não resisto a este post

Disse-se:

Isto só foi possível porque aconteceu com “a senhora dos blogs da sapo”

A qualidade da rede foi determinante

É apenas parcialmente verdade. Se é certo que o círculo de contactos de 1º grau é importante, também é verdadeiro que não é garantia de nada. Para que haja adesão à causa são precisos pelo menos mais três ingredientes:

. não custar dinheiro

. não obrigar a levantar o traseiro da cadeira

. dar a sensação de poder

 

Exemplifiquemos:

A mesma @jonasnuts, usando o mesmo blog (http://jonasnuts.com/385115.html e http://jonasnuts.com/385992.html), o mesmo twitter (http://twitter.com/jonasnuts/status/4665859792445440) e o mesmo facebook (http://www.facebook.com/notes/m-joao-nogueira/solidariedade-sexual/10150331729555221), procurou junto do mesmo círculo de contactos apoio e adesão à causa dos Anjinhos de Natal.
Deve ter chegado a dezena e meia de adesões; nada mau, mas não comparável com a Ensistória.

Faltaram-lhe 2 dos ingredientes extra.

A Ensitel não fez o trabalho de casa. Não sabia quem era a Jonasnuts

Se fosse o Sócrates, o Herman ou uma socialite qualquer, isto jamais teria acontecido.

Certíssimo. E aqui acho que todas as empresas e entidades pecam. Desde o quiosque do Joaquim até ao governo do José.

O serventilismo foi e será infelizmente um dos pilares da nossa cultura

Esta é uma luta pela liberdade de expressão

Para alguns. Esta é uma luta por muita coisa ao mesmo tempo. Não se junta tanta gente em tão pouco tempo por uma mesma causa. É estatisticamente improvável.
Algumas motivações serão:

. irritam-me as empresas infoexcluídas a operar online

. não suporto manifestações de arrogância como a demonstrada pela Ensitel

. interessa-me surfar a hashtag wave e assim ganhar alguma reputação

. quero é ser contratado pela Ensitel enquanto consultor para o online

. gosto de qualquer linchamento público que meta sangue

. porque não custa dinheiro, não tenho de levantar o traseiro da cadeira e sinto-me poderoso

. a culpa é do Paulo Querido

e claro os que genuinamente acreditam que este caso pode criar jurisprudência em Portugal e que acreditam tratar-se de uma ferida grave na liberdade de expressão.

Quem tem a ganhar?

A comunidade? Melhor, as comunidades? Da próxima vez que alguém usar o seu blog ou twitter para relatar alguma injustiça, fá-lo-á com a esperança reforçada de gerar uma onda de solidariedade capaz de mover algumas montanhas.
As empresas e consultores de Relações Públicas em geral. Este caso da Ensitel, imagino eu, deve ter gerado uma correria a este tipo de serviços. Uma forma de precaução contra fenómenos do género no futuro. E acho bem pois então.
Os académicos claro. Acabam de ganhar um saquinho de laranjas das boas que podem espremer nos próximos anos e fazer o trabalho de sapa que estas coisas exigem.

Quem tem a perder?

Antes de mais, obviamente a Ensitel. Mas caramba. Será que não percebem que é também uma oportunidade brutal? Não têm nenhum Spin Doctor nos quadros que os ajude?

Reconhecer o erro com humildade, envolver a comunidade recolhendo sugestões, abordando o online com inteligência e franqueza. Enfim, ao longo desta odisseia já foram feitas tantas e tão boas sugestões que nem precisam contratar o tal consultor de PR. É só ler.

Perde também a carteira da Jonasnuts claro. Felizmente não sou mesmo nada douto nestas coisas de processos e tribunais. Mas não creio estar errado em presumir que mesmo ganhando as acções em tribunal, não será a Ensitel a pagar-lhe os advogados.

E como o Bitaites disse e muito bem, quando a altura chegar, contar-se-ão pelos dedos da mão os que sobram para testemunhar abonatoriamente pela Jonasnuts. Já os empregados ensitelianos irão cordatamente fazer o que lhes pedem a bem da manutenção do seu emprego.

Concluindo, como em quase tudo, uma ejaculação precoce é pouco satisfatória. As análises sumárias dão nisto.

A alternativa será aguardar pelos académicos que daqui a 5 ou 7 anos irão produzir um estudo cheio de referências e citações mas já completamente desactualizado.


Comments

2 responses to “Em directo das trincheiras”

  1. cpinto Avatar
    cpinto

    A melhor reacção. by far. E boa sorte para o que aparentemente aí vem que quando se mistura tecnologia e tribunais a coisa nunca corre lá muito bem.

  2.  Avatar
    Anonymous

    Verdade!!! infelizmente os nossos juízes não são especializados e julgam tudo o que lhes aparece à frente (não digo que seja culpa deles, é o sistema que assim está montado), e em casos de tecnologia, branqueamento de capitais e outros que tais que exigem conhecimento específico (tal que a policia judiciária está especializada para investigar), como eles não têm, se acertarem minimamente numa sentença justa foi por sorte!

    Por isso, boa sorte!

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