30 Janeiro 2012

IFPI report

 

É importante manter viva a discussão sobre a #pl118. E se é importante continuar atento, também é inútil chover no molhado.

Precisamos de soluções. Alternativas à infame proposta. Encurralar os lobbies da AGECOP e companhia só serve para justificar a sua vitimização ou fuga para a frente.

 

A curto prazo vejo os seguintes cenários:

 

Cenário 1: Manutenção do status quo

Continuam fora do manto da taxa os discos rígidos, cartões de memória, leitores de MP3, etc.

Mantém-se a exceção ao CDADC que prevê a remuneração pela cópia privada.

Neste cenário é previsível nova investida da indústria no sentido de alargar a abrangência da lei mais dia menos dia.

 

Cenário 2: A proposta lei 118/XII é aprovada sem alterações

É o pior dos cenários possíveis. Significaria que o parlamento teria ignorado milhares de assinaturas em petições públicas, milhares de tweets, centenas de posts. Teria ignorado a posição expressa pelas associações retalhistas e cedido em toda a linha ao lobby da AGECOP.

As consequências para o cidadão e para o desenvolvimento da tecnologia já foram retratados profusamente. Mau demais para contemplar tal hipótese.

 

Cenário 3: A proposta lei 118/XII é aprovada com alterações.

O valor das taxas passa a ser atualizado anualmente à semelhança de alguns países europeus.

Ficaremos sempre à mercê do discernimento do legislador no momento do cálculo da taxa. Sempre que haja uma atualização veremos os movimentos dos lobbies procurando levar a brasa à sua sardinha.

 

Cenário 4: A proposta lei é rejeitada e anunciada discussão pública sobre o tema.

O parlamento decide esperar para ver. Informa-se sobre o que vem acontecendo nos outros países europeus sujeitos à mesma diretiva comunitária que está na génese da Lei 50/2004. Promove audições públicas sobre o tema. Envolve os cidadãos e as associações de forma livre e aberta. Promove a criação de uma comissão independente incumbida de realizar os estudos necessários à total compreensão da questão.

São discutidos todos os ângulos sem tabus. Questiona-se tudo e todos. Discute soluções.

 

Após este processo, eventualmente propõe a revisão do CDAC e elabora nova proposta de lei que resulte do relatório dessa comissão.

 

Gosto deste cenário 4. É justo, informado, aberto e democrático, sem dogmas ou nuvens cinzentas.

 

Toda a gente já percebeu (olhando as declarações da AGECOP e da SPA) que o que os preocupa é a pirataria. A exceção ao direito de autor para a cópia privada é um expediente que usaram porque não sabem como combater a pirataria. É uma forma de minimizar o dano. Um desenrrascanço.

A pirataria prejudica os autores. Claro que sim. Investir no combate à pirataria? Obviamente que sim. Mas não o façam à custa de todos. Dos justos e dos pecadores.

 

Não usem a cópia privada como solução contra a pirataria. É uma falácia e já todos percebemos isso.

Modernizem-se. Explorem modelos de "direito a ouvir" em vez de investirem na venda do ficheiro. Estudem os modelos de sucesso no mundo. Netflix, Spotify, Amazon eBooks, etc. Leiam os relatórios dos organismos mundiais dos vossos setores. Eles já falam sobre isto.

 

Em 2011 o número de assinantes de serviços do tipo Spotify e Deezer passou de 8 para 13 milhões! Acordem!

 

"Despite the challenges ahead, the optimism for digital music going into 2012 is well-justified. The music industry has grasped the opportunities of the digital world in a way few, if any, other businesses can claim to have done. Our digital revenues, at one third of industry income (and now more than 50 per cent in the US), substantially surpass those of other creative industries, such as films, books and newspapers" pode ler-se no relatório da IFPI.

 

E continuo a citar o relatório da IFPI

 

"The rise of Subscription

 

Music subscription is transforming the way people experience and pay for tracks and albums.  It is also a fast-expanding business model. The number of consumers subscribing to music services globally is estimated to have increased by nearly 65 per cent in 2011, reaching more than 13 million, compared to an estimated 8.2 million the previous year.  This supplements the tens of millions of consumers who already use download services.  “Subscribing to music used to be quite an abstract concept – but now it has become a practical concept.  The mass market understands how it works and consumers see the huge benefits,” says Edgar Berger of Sony Music.

 

Subscription has caught on exceptionally well in some markets, particularly in Scandinavia. In Sweden, for example, subscription accounted for 84 per cent of digital revenues in the first 11 months of 2011, boosted by its national champion Spotify. Other markets saw sharp growth in subscription revenues, including France which saw an increase of more than 90 per cent in the first 11 months  of 2011 (SNEP)."

Antes de atualizarem a lei, atualizem-se vós meus senhores.

 

publicado por Eduardo às 23:07

30 Janeiro 2012

Clube do Bolinha

 

Era desta forma que o Bolinha exprimia a sua vontade de manter a Luluzinha longe do seu reduto. Seu e dos outros rapazes do grupo. A Luluzinha era uma menina bem esperta e cheia de truques e raras eram as vezes em que não conseguia furar o esquema do Bolinha. Quando isso acontecia, a solução mais óbvia era o Bolinha mudar-se de armas e bagagens para outro clube onde invariavelmente estaria à porta o célebre "Menina não entra".

 

Era óbvia a tensão amorosa entre os dois. Apesar de estarem em permanente conflito todos sabíamos que no fundo a Lulu gostava do Bolinha e o inverso era também verdadeiro

 

Esta era a uma história aos quadradinhos da minha infância, mas também é a história dos fluxos migratórios de grupos tão pequenos como os que encontramos num canal de chat, até outros de dimensões maiores como punhado e meio de hackers de elite ou geeks esclarecidos. O sentimento de pertença ainda que alicerçado em coisas muito diferentes: ética e filosofia, valores ou gostos musicais, escolhe sempre uma representação física, um lugar físico ou virtual para os seus encontros. No chat era o IRC da rede X; para os geeks há uns anos era o Twitter, para os maçons as suas lojas. No Clube do Bolinha era o casebre de madeira (re)construído e relocalizado tantas vezes quantas as invasões das meninas.

 

Luluzinha  Luluzinha

Em 2012, o novo Clube do Bolinha é mais global e chama-se internet.

Luluzinhas há muitas. São políticos ou corporações, associações ou lobbies. As armas são diversas mas continuam a ser inteligentes como a Luluzinha. Agora chamam-se SOPA, ACTA, PIPA, PL118, SINDE, etc.

 

O Bolinha estava quieto no seu clube. A Luluzinha não entrava mas queria entrar. A Luluzinha precisava do clube do Bolinha e na realidade, o Bolinha precisava da Lulu. Da mesma forma que os políticos e corporações precisam da internet. Os mesmos que há poucos anos olhavam com o desdém da moda passageira "as internetes", rapidamente perceberam que estava ali um meio direto e barato de se darem a conhecer. A si e aos seus produtos. Músicos, partidos, empresários abriram as portas do clube exclusivo do Bolinha. E no princípio o Bolinha gostou. Viu o seu clube ser reconhecido universalmente e foi ingénuo. Atrás deles vieram as regras e os regulamentos, as penas e as polícias e com os polícias, os ladrões também.

 

Quem devia estar a pagar aos internautas pelos benefícios da internet eram as editoras.

A mesma internet que esta invasão de regras pretende ordenar é aquela que serve para promover artistas com custos irrisórios de divulgação e, sobretudo, de distribuição. Há poucos anos um artista dependia de uma grande editora que fizesse lobby junto das rádios, televisões e revistas, publicasse notícias, posters e anúncios. E antes era preciso gravar a música. O acesso a um estúdio de gravação era um sonho apenas ao alcance das editoras estabelecidas. E depois era preciso produzir o vinil ou o CD. Fábricas com máquinas caríssimas a debitar plástico enlatado para as lojas.

 

A internet trouxe a divulgação da obra à distância de um clic. A venda do produto à distância de outro. A promoção à custa de páginas de bandas muitas vezes geridas gratuitamente pelos próprios fans. Não me lembro de ver os internautas a pedir uma remuneração por tanta facilidade e benesses oferecidas à indústria.

 

O Bolinha deixou a menina entrar e agora luta para se manter vivo.

Se calhar é tarde demais. Se calhar a internet que conhecemos vai ser entregue às corporações, lobbies e políticos. Se calhar, o Bolinha vai emigrar e construir um clube novo onde menina não entra. Uma internet renovada, um Grande Cisma.

 

Clube do Bolinha - No Girls Allowed

Começar de novo.

Há tanta forma de o fazer. Parece tarefa impossível não parece? Puro engano. Por estranho que pareça, é hoje possível construir este espaço sobre o mesmo terreno onde vive a internet atual. É possível comunicar usando os mesmos canais físicos e virtualizar uma internet totalmente nova recorendo à computação e storage distribuídos, algoritmos de cifra de informação, etc, etc.

 

Não sei como irá acontecer, mas sei que irá acontecer. Afinal de contas, a internet quando surgiu também foi construída sobre os meios de comunicação regulados existentes. Era um clube do Bolinha: a ARPANet. O Bolinha chamava-se então "militares" e depois "universitários".

 

O ciclo de construção, regulação e destruição é tema recorrente da filosofia por ser inerente ao processo humano. É mais forte do que nós, diria.

 

Fico a pensar que iremos voltar a falar disto em breve.

publicado por Eduardo às 15:18

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